Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo
Instituto Pequeno Cotolengo recebeu prêmio da Volkswagen

Com o fortalecimento do conceito de responsabilidade socioambiental entre organizações de pequeno, médio e grande porte, o trabalho voluntário realizado por funcionários serve como ponte entre as empresas e a comunidade. Fábricas, instituições financeiras e outras entidades privadas, o chamado segundo setor, têm criado programas de voluntariado para facilitar e estimular as ações sociais entre seus colaboradores. Além de trazer para dentro da organização a realidade do seu entorno, o que permite uma transformação social eficaz, os benefícios dessa interação são observados no rendimento dos trabalhadores.

Em algumas empresas, a relação da organização com ações voluntárias é responsabilidade do departamento de recursos humanos, enquanto em outras fica a cargo de institutos e fundações. No caso do HSBC, o responsável por propor iniciativas e capacitar seus colaboradores é o Instituto HSBC de Solidariedade (IHS). A diretora executiva do IHS, Claudia Malschitzky, explica que o programa de voluntariado da organização existe há apenas três anos. “Começou quando tentamos entender o que acontecia por trás das apresentações de Natal no Palácio Avenida. Nasceu tudo dali, em 1998 ou 1999, mas vários programas foram lançados e não se chegava a uma receita de sucesso”, conta. Duas empresas de consultoria foram então contratadas para ajudar o IHS a desenvolver um novo programa, que hoje é formado por comitês regionais em todo o Brasil, administrados pelos voluntários.

Apoio

Instituição presta assessoria a interessados

Independentemente do porte da empresa é sempre possível implantar um programa de voluntariado, afirma Thiago Soares, analista de projetos do Centro de Ação Social (CAV) de Curitiba. “É mais comum em organizações médias e grandes, por causa do alto investimento que é feito, mas não há nenhum impedimento para que uma pequena empresa também possa estimular seus colaboradores a serem voluntários”, afirma.

O analista explica que são várias as maneiras pelas quais uma entidade privada pode estimular seus funcionários ao voluntariado. “Seja escolhendo uma ONG para atuar, fornecendo camisetas ou até mesmo liberando o colaborador de algumas horas de trabalho. Não vemos esse caso como uma descaracterização do trabalho voluntário por causa da remuneração.”

Para os gestores que têm interesse em fomentar o voluntariado mas não sabem por onde começar, o CAV presta um ser­­viço de assessoria, que inclui desde o diagnóstico do ambiente, para ver se gestores e co­­laboradores estão preparados, até a transição, quando a organização ganha autonomia e administra seu programa sozinha. “O impulso deve vir de dentro da empresa e construímos o programa de acordo com as características do ambiente da organização. É o segundo setor fortalecendo o terceiro.”

No Instituto GRPCom, braço social do Grupo Paranaense de Comunicação, há um banco de voluntários que são convidados a participar das ações realizadas ao longo do ano. “Muitas vezes o que atrai o colaborador é realizar uma atividade completamente diferente daquilo que ele faz no dia a dia”, diz Rafael Riva Finatti, do Núcleo Socioambiental do instituto.

Na Volkswagen, a maneira encontrada para estimular a prática de trabalho voluntário foi conceder um prêmio para os melhores projetos sociais indicados pelos padrinhos, que são funcionários da fábrica. Conceição Mirandola, diretora da Fundação Volkswagen, conta que o Volkswagen na Comunidade, como é chamada a premiação, existe desde 2008 e surgiu como resposta aos inúmeros pedidos de ajuda dos funcionários para as entidades que conheciam.

Benefícios

Claudia Malschitzky acredita que o funcionário que faz ações sociais leva o nome da organização até espaços onde o próprio banco não conseguiria chegar sozinho. “É impossível você estar presente como empresa num país e não estar conectado com a comunidade. Então esses voluntários são padrinhos, para fazer a ponte entre a instituição e o instituto.”

Para o alemão Josef Fidelis-Senn, vice-presidente de recursos humanos da Volkswagen do Brasil, o homem é em sua natureza um ser social, que precisa manifestar sua solidariedade inclusive no ambiente de trabalho. “Uma pessoa que se engaja fora do trabalho tem mais valor, pensa de forma mais abrangente”, afirma o executivo.

Prêmio a uma década de contribuições

O controlador estatístico de processos Aluísio Pereira Espinosa tem 34 anos, oito deles dedicados ao seu trabalho na montadora da Volkswagen de São José dos Pinhais e 11 voltados ao atendimento das crianças do Pequeno Cotolengo, instituição que cuida de pessoas com deficiências múltiplas. Na última sexta-feira Espinosa viu sua rotina mudar ao realizar o sonho de retribuir ao Pequeno Cotolengo os benefícios que recebeu durante mais de uma década de serviços prestados.

Irmão de uma professora da entidade, Aluísio conta que até 2001 não se sentia confortável no espaço da organização. “Não era o meu mundo, para mim o impacto era muito forte. Eu era vendedor e tinha uma filha de 1 ano para sustentar, mas as vendas não eram tão boas e eu estava muito preocupado. Até que acompanhei minha irmã em um churrasco da instituição, ouvi uma música saindo de uma sala e entrei para ver o que era. Lá encontrei pessoas com deficiência muito alegres”, conta.

Religioso, Espinosa viu na cena um sinal de que não tinha o direito de reclamar da vida. Passou a se envolver cada vez mais com o Pequeno Cotolengo e resolveu voltar a estudar e procurar um novo emprego, com uma remuneração melhor. Empregado na área de qualidade da Volkswagen, ele é um dos responsáveis por evitar que os carros saiam da fábrica com defeitos.

Persistência

Desde 2008, quando foi criado o prêmio Volkswagen na Comunidade, o controlador se juntou à irmã e aos diretores do Pequeno Cotolengo para inscrever a instituição. A organização escolhida pela empresa é beneficiada com um valor em dinheiro e um curso de gestão de projetos sociais. “Depois de quatro anos concorrendo tínhamos certeza de que uma hora iria acontecer. E Deus quis que fosse neste ano, em que o prêmio é maior.”

Aluísio diz que a ajuda de R$ 40 mil é uma forma de retribuir a mudança de vida pela qual passou a partir daquele churrasco. Mas é também um reconhecimento e uma retribuição da empresa pelos 11 anos de serviço voluntário. “É uma satisfação pessoal. Os colegas e superiores já me olham diferente e tem quem se interesse por ajudar as instituições também. Vou olhar para trás um dia e saber que um tijolo ou uma telha da instituição fui eu que ajudei a colocar”, diz.

Fonte: Matéria de ELLEN MIECOANSKI, Gazeta do Povo

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